O homem maduro com ele mesmo

Posso escrever sobre o que sinto e sou. Não posso escrever sobre o que não sei. Devo escrever sobre o que sei e nada mais.

Cada experiência que vivo, determina garantidamente a minha visão de mundo. Essa visão de mundo é alterada conforme os eventos que tenho vivido.

Tenho 38 anos, só que levo comigo o peso do acréscimo de mais algumas décadas sobre a minha idade biológica.

Luto para manter vivo o meu mundo interior. Na verdade, vivo em função disso. Tudo que faço é uma decorrência do que me há de mais íntimo.

As minhas escolhas e obrigações são responsabilidades integrais do meu processo decisório.

Me responsabilizo largamente sobre as minhas escolhas. Vivo com a carga dessas responsabilidades. Posso até me desviar temporariamente dos preços que a vida me cobra. Mas sei exatamente o que foi originário dessas cobranças.

Nada nessa vida é cobrado de forma aleatória. Penso que há sempre uma correspondência entra o mundo interior e o mundo exterior. Assim como, existe sempre um espaço de arbitragem entre a emoção e a razão.

Em geral, porque vivemos num mundo material, a medida de valor é econômica. Não obstante, o preço emocional cobra mais caro.

Ter clareza e consciência disso é libertador. No sentido de poder escolher as decisões e os desdobramentos que a vida me proporciona.

Em decorrência de um longo período de sofrimento que tenho vivido, já até pensei em não escolher coisa alguma. Mas acredito que isso não me produzirá o sentido que preciso para poder continuar.

Durante toda a minha vida, escolhi diferentes sentidos e orientações para percorrer o meu caminho. Ocorre que de uma forma misteriosa a vida me trouxe de volta para o sentido originário. Parece que esse destino que percorro foi esperado antes de mim. Por isso, me é natural percorrer esses passos. Pode até parecer um motivo religioso e devoto, mas a verdade, é que é uma força maior que a minha capacidade de escolher ou de renegar esse destino.

Hoje acho que o fato de escolher ser livre é um ato de aceitação e de dizer que as coisas não estão apenas sob o meu controle. Que a minha força é limitada e que devo me orientar por um plano divino que está além da minha vontade. De dizer que a vida tem o seu próprio curso e que sou mero condutor de um fluxo muito maior do que a minha capacidade de compreensão.

É assustador pensar que as coisas estão tão fora do meu controle. É terrível viver uma vida marcada por um grande sofrimento. Por outro lado, é comum a maioria das pessoas pensar que sou privilegiado por possuir coisas que a maioria das pessoas não tem. Ocorre que elas não sabem, não entendem e não sentem uma fração do peso que carrego.

Não é pelo fato de ser detentor de meios e de recursos materiais que não tenho dores e sofrimentos demasiados na alma. 

O meu objetivo não é para que as pessoas que lerem esse relato sintam pena de mim. Quero apenas com isso transmitir o que sou e o que sinto. Quero que as pessoas me percebam para além dos rótulos e das projeções que criamos. Isso é importante para mim. Ser visto pelo que sou e não pelo que tenho.

Por mais que a maioria das pessoas, inclusive eu mesmo, em muitos momentos, sou orientado por interesses meramente materiais.

Considero a minha vida importante pelo que sou. Luto para ser reconhecido por essa qualidade. Para poder dividir o que sei e o que aprendi.

É difícil para mim viver num mundo onde o material é a medida de todas as coisas. Isso não significa, como já disse antes, que não tenha os meus próprios interesses e as minhas próprias necessidades. É que realmente eu gostaria de ser valorizado pelos meus princípios.

A minha vida de hoje, caminha muito mais no sentido desse princípio. Estou lutando com todas as minhas forças para poder ser valorizado pelo que sou. Me livrando das armadilhas e de complicações que podem atrapalhar esse caminho.

Cada dia que passa o meu caminho é mais reto e honesto. Quero ser cada vez mais transparente, integro e sincero com os meus princípios. Por mais que isso possa custar um preço muito alto. Como um filósofo que gosto muito uma vez disse — “nunca é alto o preço de pertencer a si mesmo”.

Não tenho certeza de que o meu caminho será glorificado pelos deuses. Mas tenho a confiança que farei tudo que está ao meu alcance para continuar caminhando.

Estou cada vez mais simplificando a minha vida em torno desse princípio. Vivendo apenas o que preciso. Reconhecendo as pessoas que estão ao meu lado nessa caminhada, ao invés de perder tempo e saúde com prazeres fugazes.

Não que não haja espaço para o lazer e para o divertimento. É que a minha vida se torna mais séria a cada dia.

Antes de ser um exemplo para os meus filhos, preciso me firmar como exemplo daquilo que ainda não sou. Tenho plena noção e clareza daquilo que preciso me tornar. Meu sofrimento ocorre porque ainda não sou o que preciso ser. Até confesso, que passei uma parte da minha vida lutando para escapar daquilo que preciso ser. Talvez porque não tinha força suficiente e não estava preparado. Agora, preciso enfrentar o que a vida sempre esperou de mim.

O que a vida espera de mim, é de realizar tudo aquilo que preciso. Boa parte desse mistério me é revelado no caminho que percorro. Posso dizer que me sinto predestinado por isso, e por mais duro e difícil que seja e é, preciso acreditar nisso e continuar caminhando ruma a essa meta. O medo de perder não pode ser maior que a vontade de vencer. Afinal, o meu maior fracasso seria me arrepender do caminho que não percorri.

Esse é o fatalismo da minha existência.

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