Nietzsche escreveu que um filósofo deveria se ocupar com a vida passando pelo menos 1/3 do tempo com ele mesmo. Sócrates é o autor da famosa frase — “Conhece-te a ti mesmo”. Freud fundou uma ciência para compreender melhor a construção da personalidade. No entanto, séculos passaram e ainda somos um mistério para nós mesmos. Estamos quase sempre recorrendo às ciências, à filosofia e à religião para justificarmos os nossos atos. Muito embora, praticar o exercício da autoconsciência seja uma das minhas maiores alegrias. É comum buscarmos referências e exemplos de caminhos a seguir. Da mesma forma que podemos, com o passar do tempo, mudar o nosso olhar sobre as coisas e o mundo. Compreendendo melhor as causas dos erros que cometemos e, com isso, observar melhor as coisas. Afirmo, por experiência própria, que esse período é muito penoso. Pois, quase sempre, poderíamos ter realizado certas coisas diferentemente. O peso dos arrependimentos e das responsabilidades podem crescer ao longo da vida. É um período de mais dúvidas que certezas. Também não adianta querer mudar o tempo que passou – podemos, isto sim, escolher novas ações, para quem sabe, nos arrepender menos lá na frente. Existem muitas pessoas que dizem que não se arrependem de nada. Sinceramente, penso que qualquer indivíduo esclarecido — consciente da própria existência — tem razões para se arrepender, mesmo que não fale sobre isso publicamente. Penso que o arrependimento, diferentemente do que muitas pessoas acham, é uma forma de encontrar novos caminhos e significados para as nossas vidas. É uma forma para mudarmos a direção de nossas vidas, sobretudo quando, por alguma razão, as coisas não estejam bem. O que não está certo geralmente revela um sentimento difícil: é como uma encruzilhada existencial, como se em um instante precisássemos definir o que queremos. Afinal, o tempo está passando e agora há menos futuro que passado. Heidegger vai dizer que a culpa e a angústia são determinantes para o homem como ser-no-mundo, o qual tem que reafirmar e edificar a si mesmo cotidianamente durante a sua existência. Esses momentos, em geral, são marcados por um período de elevado sofrimento e de autoanálise. Pelo menos é assim que ocorre para mim. Claro que cada indivíduo é único – tendo o espanto do mundo diante dos próprios olhos. Georges Bataille diz que o erotismo é a chave para desvendarmos o aspecto mais fundamental e determinante da natureza humana. Também podemos recorrer aos gregos e, especialmente, às tragédias, para compreendermos as nossas paixões. Isso torna fascinante a aventura do espírito humano sobre a terra. O diretor de teatro Antônio Abujamra era conhecido por seu humor ácido e crítico. Ele sabia, como poucos, insultar a vida heroicamente. Infelizmente não tive a oportunidade de conhecê-lo – adoraria ter sido vítima das suas provocações. Entretanto, conheci figuras extraordinárias como o artista Emanoel Araújo e o psicanalista Flávio Gikovate. Posso dizer que eles contribuíram para a minha forma de ver o mundo. A multiplicidade de escolhas é algo que mexe sempre comigo. Escolher uma profissão é deixar de lado muitas outras possibilidades. Conhecer o mundo é expandir o nosso próprio vocabulário e linguagem. Paulo Freire, Rubem Alves e Darcy Ribeiro se dedicaram inteiramente para essa missão. Educar é uma missão nobre e humana. Não deve ser exercida por gente rasa.
O educador é antes de tudo um ator que conhece e provoca as mais diferentes reações dos seus alunos. Penso que o teatro deveria ser um importante meio educativo, dado que através dele podemos representar os extremos da natureza humana. As artes plásticas me interessam até certos aspectos. Há um certo fator recorrente nas artes plásticas que não ultrapassam fronteiras. Avançar em novos campos é ampliar possibilidade de batalhas. O poeta precisa ultrapassar o domínio da própria linguagem para suceder. Quantos saltos no vazio e no escuro são necessários no mundo contemporâneo — sendo tão plural e diverso — para suceder? Enquanto a música me exprime uma linguagem desconhecida. Talvez, por isso, seja a forma de arte mais sublime.
A metafísica de Aristóteles responde através da lógica o problema do ser e do não-ser. O conceito de ato e potência é definitivo para esse entendimento. Penso que parte do sofrimento humano está associado entre aquilo que somos e aquilo que queremos ser. O sofrimento habita esse intervalo de tempo. Na maioria das vezes, sofremos, enquanto não somos aquilo que gostaríamos de ser. As frustrações e as realizações humanas dependem muito disso. O ser e o devir são investimentos importantes da filosofia. Principalmente quando a filosofia é vista como pharmakon. Restringir o sofrimento humano ao campo da psicologia e da psiquiatria é o mesmo que dizer que os rios não se destinam ao mar. Notem, por exemplo, que Freud e a psicanálise promovem muitos empenhos nesse sentido. Classificar, rotular e tratar pacientes exclusivamente com distúrbios e transtornos é o mesmo que não considerar o lado escuro da lua. Até porque eleger doenças é uma forma de chamar atenção. O problema fundamental, para mim, ao que parece, é a facilidade do descarte de uma vida humana. Ninguém é tão importante a ponto de ser insubstituível. Saber e ter que lidar com isso, sem recorrer ao artifício do uso da fé, pode ser um fardo insuportável. Dostoiévski sabia bem disso. Dizia ele: “Se Deus não existe, tudo é permitido”. Além dos problemas morais e civilizatórios que essa frase implica, e o abalo que isso causou em todo o mundo durante o século passado, somos marginalizados pelo sentimento de desesperança na falta de crença em um ser superior. Nietzsche teve que lidar com tudo isso e acabou pagando um preço alto. Mesmo assim, ele não deixou de afirmar e de reafirmar a vida mesmo nos momentos mais difíceis. Ser cético e cultivar a alegria realmente me parece um dos deveres mais difíceis. Ainda mais quando, como Nietzsche, colocamos sob a perspectiva o conceito do Eterno Retorno. Suportar esse fatalismo é no mínimo cômico. Sobretudo quando as horas sucedem lentamente. Em Memórias Póstumas de Brás Cubas, romance do Machado de Assis, o autor conclui — “Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria”.
A construção da personalidade e a multiplicidade dos seres

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