Como escrever sem me entregar?
Quais são as estratégias e as palavras que devo escolher?
Por que desisti de fazer arte?
Imitar a vida já não era suficiente.
Precisava viver e desvelar os meus medos e os meus desejos mais profundos.
Já não podia mais fugir da realidade.
A loucura já não me cabia mais.
A metafísica é o meu refúgio.
A realidade me é quase insuportável.
Vivo isolado. Enclausurado em mim.
As escolhas me cobram o preço da responsabilidade.
Viver e ter consciência disso é terrível, é pedante, é massacrante.
Estou cansado de arte e de terapia.
Estou cansado de ver e de recolher feridas em mim e nos outros.
Poderia me empenhar para dizer algo original de forma amistosa.
Estou cansado de ter inimigos e ver desertores.
O mercantilismo me irrita.
Sofro em silêncio por aí.
Antes, era insuportável para os outros.
Agora, sou um deserto para mim.
É trágico e cômico.
Quanto mais me revelo, menos me surpreendo.
Não há nada de surpreendente na condição humana.
O sublime é um artifício.
A realidade é mais áspera.
Areia e concreto.
O que há de sublime em ver um homem sofrer?
Às vezes, penso que é melhor não fazer nada.
Suportar em silêncio a própria miséria seria mais digno.
O sofrimento não cessa. A vontade de fazer alguma coisa é passageira.
Reproduzir as necessidades básicas e ponto.
Quanta bobagem a gente inventa. A vida simples é muito mais extrema.
Aliás, como é difícil, viver simples.
Desmascarando ilusões.
A vida simples é um grão de areia.
A fúria me tornou ridículo.
Tropecei na realidade. Dei-me conta de mim.
Incompletudes me distraem da verdade.
Como a verdade é chata.
Os filósofos, já sabendo disso, perseguiram a busca pela verdade.
Pois, a verdade em si, é desanimadora.
O suicídio é uma ideia demasiada agradável para considerá-lo uma alternativa plausível.

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