Fim

Apresento a conclusão desses ensaios filosóficos: cada etapa percorrida em nossas vidas deve ser vista como experiência única e indivisível.

A possibilidade de alcançarmos a completude existe em alguns instantes. O ser humano não é completo, mas pode se auto completar ao longo da vida.

Nada é eterno e nenhuma crença é inabalável. Tudo se encontra em movimento, em transformação. Não percebemos essas mudanças devido à espessura das imagens que projetamos da realidade. É como se as imagens estivessem congeladas enquanto as mudanças acontecem. A memória é a prova de nossa existência. Nada é mais importante que a memória. Somos o conjunto das experiências que escolhemos ser. O ser está aí e não há nada que altere isso. Podemos, isto sim, experimentar a multiplicidade do ser no decorrer de nossa vida. A criação, vista como forma de invenção da realidade, é o que pode nos consolar da fatalidade do nosso destino. Penso que se salvar é encontrar sentido nisso.

Entretanto, nada disso basta se não partirmos ao encontro do ser do outro. O nosso ser faz parte do ser do outro e vice-versa; o devir deve considerar o seu aspecto filial. O processo de individuação, que Jung nos oferece, só é completo no ser social – não renunciando e perdendo a si mesmo no ser do outro.

A construção da personalidade e a multiplicidade dos seres são aspectos e fundamentos de como existimos no mundo.

Penso que toda ética, arte, política e religião, devem partir da ontologia. Deus não está morto, ele existe dentro de cada um de nós, mesmo que isso não seja uma promessa de continuidade.

Porém, se continuarmos cultivando descrenças no ser alheio, isso implicará na nossa própria desgraça. A saída, a meu ver, para esse problema filosófico, é o ser apostando continuamente em si e no ser do outro.

É a recuperação do humanismo no sentido da importância da dignidade humana, e não uma supervalorização da razão e do cientificismo.

A liberdade e a responsabilidade, de Sartre, são orientadas pela ética, subordinadas às suas necessidades mais ontológicas, heideggerianas, fundamentais do ser.

Os princípios e as necessidades são oriundos da memória e das funções biológicas. Tudo pode ser criado e vivido sob as penas da responsabilidade e das leis da física.

A mente deve se virar pelo avesso. Cada um se torna o seu próprio psicanalista.

A psiquiatria pode ser um recurso temporário para a realização de um salto ontológico. Remédios podem ser usados desde que o próprio ser humano não desista de si mesmo.

A vontade de poder alcança o seu mais alto nível. O super-homem nietzschiano encontra novos significados, desafios e oportunidades; mas, sobretudo, encontra o seu ser além de si — apostando no seu próprio ser e no ser do outro.

Dedico esse texto ao meu amigo, Ricardo Resende.

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