Olá a todos! O objetivo desse canal é dividir, compartilhar, instigar, provocar conhecimento, para que vocês e para que eu possa me nutrir dessa forma de ver o mundo – que é através do conhecimento e da arte. O conhecimento, assim como a arte, são expressões e são revelações que nós podemos alcançar para que a gente possa expandir a nossa visão de mundo. Há várias formas da gente fazer isso. A filosofia, como instrumento racional e crítico, é uma delas. Mas a arte e toda a sua potencialidade, toda a sua expressão e toda a sua revelação, através do desejo, não deixa de ser tão importante quanto. Então, para começar esse canal, eu gostaria de propor uma pergunta, que é uma pergunta ampla – uma pergunta que nos possibilita abranger vários aspectos da realidade. E a pergunta que eu me faço é: o que é o contemporâneo. Essa pergunta, ao meu ver, precisa ser feita para que a gente possa ter uma compreensão maior da realidade que nos circunscreve. É evidente que cada pedaço da realidade é importante para que a gente a compreenda. É muito difícil a gente conseguir absorver a realidade na sua totalidade. Para isso nós procuramos através de fendas, através de recortes, através de diferentes opiniões, uma compreensão das coisas – para que a gente possa construir a realidade e o nosso entorno. Eu gostaria de dizer que uma das coisas que mais me interessa no campo da filosofia é o ser humano, é a ontologia. A ontologia foi estudada por muitos pensadores. Não só foi estudada como foi objeto do interesse central de muitos pensadores, de muitos filósofos que se propuseram a conhecer a si mesmos. “Conhecer a si mesmo” é uma frase de Sócrates. Sócrates talvez tenha sido um dos primeiros pensadores que nós conhecemos que começou a se preocupar mais com o ser humano no seu aspecto político. A filosofia passou a ter, naquele momento, um interesse maior voltado às relações humanas, voltado à ética. Até então a filosofia e os filósofos pré-socráticos, os filósofos que antecederam a Sòcrates, se preocupavam com a physis. Se preocupavam em tentar explicar o mundo através de uma forma racional e crítica, utilizando a razão. Então a racionalidade humana passou a ser um interesse e uma organização maior para que a gente pudesse compreender o mundo. E claro que com Aristóteles isso se eleva a uma potência muito elevada porque Aristóteles fundamenta uma série de princípios lógicos para que a gente possa avançar no campo desse entendimento geral das coisas e fundamenta as ciências como elas são hoje. E isso é de suma importância para a compreensão da realidade e para o desenvolvimento das ciências de uma forma geral. Não obstante, é claro que para que a gente consiga compreender o que é o contemporâneo, é muito importante que a gente busque informações, que a gente busque conhecimento, através dos antigos. É somente lendo os clássicos, lendo aqueles que vieram antes de nós, que nós conseguimos criar algo novo. Eu já disse isso algumas vezes e acredito que isso é de suma importância para a revelação do novo. Os artistas, no geral, têm essa preocupação e uma intuição em relação a criar linguagens; e na criação de linguagens, os artistas se apropriam de meios e recursos que são necessários para o desenvolvimento das suas linguagens. Muitas vezes isso acontece de forma, como eu disse, intuitiva, e não necessariamente de forma lógica. No entanto, o próprio Nietzsche é um dos pensadores que incentiva… o super-homem do Nietzsche, vamos assim dizer, seria aquele homem que consegue reunir em si essas duas potências: o filósofo-artista. O filósofo-artista para o Nietzsche seria uma potência muito grande em termos de produção de conhecimento, em termos de produção de arte, em termos de estética. Foucault vai trabalhar isso naquilo que ele diz que… o ser humano como sendo a sua própria obra de arte, o ser humano sendo a sua própria obra de arte no sentido dele esculpir-se. Tarkovski nos seus relatos, nos seus diários… Tarkovski o cineasta russo, diretor.. tem um livro do Tarkovski que inclusive é muito bonito, se chama “Esculpir o tempo”. E ali ele entende essa visão e consegue revelar nas suas produções no cinema, que ele criou, e não em muitos filmes – mas em poucos filmes – mas com uma natureza ontológica muito densa, muito vertical, no sentido da produção que ele cria, muito relevante para a história da arte de forma geral e obviamente para a história do cinema. Então quando a gente procura responder essa pergunta “o que é o contemporâneo?”, é muito importante que a gente se volte para o passado porque somente assim nós conseguimos compreender o nosso tempo. E para que a gente consiga compreender o nosso tempo é muito importante que a gente consiga compreender o que veio antes de nós. E para isso exige um esforço muito grande de estudo, de preparo, de disciplina e de reflexão para que a gente consiga digerir aquilo que veio antes de nós. Porque senão é muito difícil a gente conseguir avançar. Então eu costumo dizer que esse salto ontológico que é o salto do ser humano em relação a ele mesmo e ao seu tempo, ele só é possível se a gente conseguir se debruçar em relação a todas as coisas que vieram antes de nós. Se a gente conseguir examinar aquilo que veio antes de nós e a multiplicidade de potências que a realidade foi construída, para que a gente consiga através disso ter um entendimento, ter uma compreensão mais ampla da realidade. Então eu gosto de provocar e sempre confrontar outras pessoas – e eu mesmo faço sempre isso – no aspecto delas poderem sempre olhar a realidade através de diferentes ângulos, através de diferentes perspectivas. Isso demanda um exercício existencial. Isso não pode ser visto como algo estático. Então o pensamento está sempre em movimento e nós estamos o tempo todo em transformação. Então é muito importante que a gente adote essa postura de observador da realidade, mas ao mesmo tempo… então isso demanda uma humildade intelectual em relação a não cultivar certezas absolutas, e ao mesmo tempo, uma busca em direção ao novo – seja através da expressão, seja através do teatro, seja através da literatura, seja através das artes plásticas. Cada um deve buscar em si, dentro dos seus domínios e das suas técnicas, as potencialidades que revelam para que possa expressar o conhecimento e a produção de uma forma autêntica. Esse conceito de autenticidade na obra de Heidegger é fundamental e Heidegger talvez tenha sido o pensador mais amplo no aspecto da ontologia, no aspecto do ser humano. Então viver uma vida autêntica é o que Heidegger nos incentiva. E para que a gente viva uma vida autêntica, a gente precisa construir a si mesmo o tempo todo. Eu acredito que esse trabalho de construção é um trabalho contínuo porque o ser humano ele não está completo, o ser humano ele é incompleto. E a busca dessa completude é o que nos traz, ao meu ver, a possibilidade de uma salvação em si mesmo. Isso não significa dizer que nós estaremos o tempo inteiro em harmonia, em uma posição de conforto existencial. Mas é através dessa possibilidade de entendimento que talvez a gente consiga superar a si mesmo nesse aspecto – e em muitos momentos nós conseguimos, por meio desse esforço, alcançar uma plenitude existencial que vá além da possibilidade de uma promessa, de uma continuidade da vida fora da própria vida. Então, na minha leitura, quando nós entendemos crise existência de Deus e que agora nós somos as pessoas que são necessárias para criar a sua própria continuidade, mas não a sua própria continuidade como promessa fora dessa vida. a sua própria continuidade como criação, a criação é a chave da continuidade – mesmo que essa continuidade seja uma continuidade instantânea, uma continuidade finita. E olhar a realidade dessa maneira, olhar a finitude, olhar o universo como algo ilimitado mas que nós somos limitados dentro dessa amplidão do universo – é belo. Isso é artístico, isso possibilita o objeto da criação. Heráclito dizia “É através do movimento dos contrários que se faz a mais bela harmonia”. Então essas revelações, para o meu entendimento, são muito importantes para que a gente possa responder a pergunta “o que é o contemporâneo?”. Para isso é importante conhecer os filósofos existencialistas. Não só os filósofos existencialistas – porque é importante fazer aquilo que a gente chama de filosofia da diferença. É importante entender esse jogo de dualidade, esse jogo de oposição que nos revela humanos e que, por sua vez, traz uma compreensão maior da realidade para nós. Então quando a gente entende de um lado os filósofos existencialistas, é interessante entender também de outro lado, quem são os filósofos essencialistas. Como esse embate de ideias produz sentido? É possível através da dialética superá-las? Tudo isso faz parte de um jogo que vai além da questão do jogo das palavras, mas que vai numa capacidade de salto ontológico. Eu vejo dessa forma, no aspecto de que esses maniqueísmos, de que essas dualidades, elas podem ser superadas em si mesmas. Em si mesmas, quando eu digo, no exercício dessa compreensão – e essa compreensão é o que nos revela a possibilidade de trilhar um caminho novo. Um caminho novo que se revela de acordo com aquela existência que nós produzimos de sentido para a nossa realidade. Vivendo uma vida autêntica, produzindo singularidade, criando no nosso próprio caminho – não só a nossa própria constituição de si mesmo, mas aí sim, uma preocupação existencial que passa pela questão do Sartre no aspecto de uma liberdade e uma responsabilidade de escolhas existenciais. Por isso que eu disse que eu gosto de olhar, eu me identifico com os pensadores existencialistas porque eles trazem para si o peso da responsabilidade. Mas ao mesmo tempo, nesse aspecto do peso da responsabilidade como a grande possibilidade da liberdade, à medida em que a gente se responsabiliza pelas nossas próprias escolhas. O salto na minha leitura não seria apenas o homem isolado em si mesmo, seria sim de fato a possibilidade do homem ou da mulher, no caso, um ir de encontro ao outro, no aspecto do entendimento do outro, no aspecto de “eu aposto na minha existência, mas eu também aposto na existência do outro”. Essa leitura, ao meu ver, é uma forma de salvação para que a gente não sucumba à nossa própria miséria. Porque o indivíduo isolado por ele mesmo, ao meu ver não produz… eu não diria que não produz sentido, mas não produz a felicidade talvez necessária para que a gente possa viver uma vida mais plena. Como eu sou eu porque eu me reconheço através do outro, eu devo meu olhar ao outro e é isso que faz com que eu consiga dar um salto ontológico. A minha aposta, a minha leitura vai muito em direção ao meu olhar sobre o que eu tenho, mas o olhar que eu tenho do outro. Esse exercício é o que possibilita na minha leitura, como eu já disse, esse salto ontológico que produziria um sentido mais pleno para que haja uma porção de felicidade maior nas nossas vidas. Espero que vocês tenham gostado do conteúdo. É claro que aqui eu procuro sintetizar um compêndio, eu procuro sintetizar uma teoria, uma forma de ver a realidade – que tem muito a ver com aquilo que eu vivo, a forma que eu vivo e a forma como eu encaro a realidade e procuro viver através dessa produção de sentido, seja ele ontológico, autêntico, existencial, responsável e humano… no aspecto de, aí sim – para não me esquecer – resgatando um certo humanismo. Não no sentido de uma racionalidade apenas, mas no sentido da dignidade humana, da valoração e da valorização do ser humano. Todas essas coisas elas estão muito além do campo da política. A política se revela muito mais no seu aspecto teatral das expressões e dos interesses particulares do que no seu sentido geral, universal do conhecimento. Espero que vocês tenham gostado do conteúdo e espero voltar em breve trazendo outras possibilidades para nós. Muito obrigado.

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