Pessoal, tudo bem? Queria gravar esse vídeo para falar sobre um conceito que eu tenho elaborado que é a “filosofia do desamparo”. O que é a filosofia do desamparo? A filosofia do desamparo seria uma maneira de ver o mundo crítica e racional pela ótica do desamparo. E qual é o desamparo? O desamparo é nós estarmos aí, o ser estar aí e estar colocado aí no mundo e estar desamparado. Está desamparado do que? Está desamparado da religião, está desamparado da política, está desamparado da ciência, está desamparado da arte. É o ser humano procurando constituir-se a cada momento, a cada instante, é a constituição do ser com ele mesmo o tempo todo, desamparado das formas convencionais que nós temos de ver o mundo. Geralmente os filósofos são quem estão desamparados da realidade tal como ela é, porque eles estão sempre questionando, confrontando as verdades. E dessa maneira eles acabam sempre construindo e depois desconstruindo as suas verdades. Isso é até uma maneira racional e crítica da gente poder compreender as coisas. Então a filosofia do desamparo na minha leitura seria uma forma da gente poder lidar com a realidade sem necessariamente se apegar a um nicho, sem necessariamente precisar se rotular de acordo com uma determinada imagem. Seria a necessidade constante de estar se relacionando e construindo outras imagens para si mesmo como possibilidades do ser. Tenho pensado muito sobre isso, escrevi um texto recente sobre isso que é a multiplicidade dos seres. A multiplicidade dos seres poderia ser vista também como a pluralidade dos seres, as possibilidades do existir, as possibilidades que nós temos e que nós podemos escolher para existir – seja através de uma profissão, seja através de uma identificação, seja através de um curso. Tudo isso faz com que a gente possa vir a ser uma outra coisa. O ser, ele está sempre escapando de si mesmo, é muito difícil nós conseguirmos prender o ser. O ser, ele sempre escapa, ele sempre de alguma forma… ele existe de uma maneira temporária. Mas ele está nesse processo de constituição dele mesmo e nós, muitas vezes, acabamos não percebendo essas mudanças, essas transformações e ficamos fixados muitas vezes em rótulos, em determinados signos, imagens que nós criamos de nós mesmos. Por isso que é sempre muito importante a gente se deslocar, ter um certo distanciamento de si mesmo e mudar o nosso ponto de vista – para que a gente consiga ver a realidade, para que a gente consiga ter esse distanciamento de nós mesmos para poder escolher melhor ou escolher aquilo que nós gostaríamos de uma outra maneira, como exercício. Tenho falado sobre isso também do ponto de vista do teatro, das representações, do ponto de vista da própria política. Tudo isso acaba nos revelando semelhanças, identidades – que podem ser ou não formas que a gente tem para escolher. Então, nesse meu conceito, a escola seria a não-escola. Seria o lugar de constituição, seria o lugar que seria possível múltiplas incitações, provocações, questionamentos, para que os indivíduos venham a se constituir como indivíduos. Se constituir como indivíduos não de uma maneira permanente, de uma maneira já… vamos falar assim… muito estabelecida de quem ele é. Mas sim através do ato da criação, como princípio criador da realidade. Claro que a necessidade de ordenação da realidade passa a ser muito importante para esse conforto existencial, para que a gente não viva desamparado de nós mesmos o tempo inteiro. Mas lidar com as incertezas é algo muito característico e ontológico a respeito do ser humano, mas sobretudo a respeito do momento histórico que nós vivemos que é a contemporaneidade. Por isso que a contemporaneidade me interessa muito. Escrevi um texto sobre isso, no aspecto da pergunta: “O que é o contemporâneo?” para poder compreender essa multiplicidade. Portanto, o contemporâneo é a incerteza, é a multiplicidade, é, de certa maneira, a falta de profundidade também… do pensamento e consequentemente uma banalidade do vulgar, uma banalidade de todas as coisas e uma mediocridade do ponto de vista da possibilidade de um pensamento mais elaborado, de referências e de substâncias que possam contribuir para a felicidade das pessoas. A grande questão no final é a felicidade e a felicidade sendo vista não necessariamente como algo, vamos chamar assim, como algo fácil, como algo estereotipado da felicidade, como algo recorrente do que poderia ser a felicidade. Mas a felicidade vista como exercício e realização desses potenciais múltiplos da existência e consequentemente, alegria na realização dessas escolhas. Independentemente do convívio com o outro. É claro que eu também, nos meus textos, resgato o humanismo no aspecto da valorização, da valoração da dignidade humana como algo muito importante para esse processo de identificação – no seu sentido que “eu sou o que sou porque me reconheço no outro” e esse processo se retroalimenta, mas não em um processo de dependência no seu aspecto ruim; mas de um convívio na possibilidade de compartilhar, digamos, essa constituição, essas necessidades. Sejam elas do ponto de vista, claro, da utilidade, da ordem, da sobrevivência e de como nós organizamos a nossa sobrevivência, mas também do campo da metafísica – daí já não como um sentido esvaziado da metafísica, mas como um sentido de uma disposição interior que demanda uma criação, uma reflexão e um reconhecimento dessa possibilidade de existir. É claro que a fenomenologia nos ajuda a compreender essas constituições, essas transformações, essas revelações, essas novas identidades. E como tudo isso é muito instantâneo, é muito fugaz, é de certa maneira perplexo por assim dizer, isso é ao mesmo tempo libertador no aspecto da realização pessoal – e é o que eu tenho incentivado sempre as pessoas: a conhecerem a si mesmo, que é uma frase socrática, mas conhecendo a si mesmo procurando essas possibilidades existenciais numa ética e numa estética da existência. É isso! Obrigado.

Leave a comment