A solidão é o melhor recurso, é a melhor forma de nós não fazermos besteiras. A solidão é a autoproteção contra as grandes adversidades da vida. Grande parte, a maior parte talvez, das adversidades da vida, acontece pelos nossos próprios princípios, pelas nossas próprias origens. É claro, é evidente, que muitas vezes nós nos deparamos com notícias ruins, inesperadas, coisas ruins que acontecem com outras pessoas e que nos afetam diretamente, que nos importam, que nos trazem para dentro de nós, que nos magoam, que nos ressentem, que nos afetam de uma forma geral. Mas grande parte dos problemas que nós enfrentamos, muitas vezes, são problemas que foram causados por nós. Muitas filosofias antigas e maneiras de pensar procuraram entender essa questão, chamaram até de carma das relações das causas e dos efeitos. A forma de nós superarmos esse carma, isso se seria possível, é nós refletirmos sobre as causas e os princípios dos problemas que nós enfrentamos. A maneira de pensar oriental, chinesa em particular, Confúcio é um pensador que assume total responsabilidade sobre os seus atos e adota o princípio da responsabilidade como um dever moral para si mesmo, para o cidadão do bem. Da mesma maneira que Sartre procura fazer o mesmo, através do mesmo princípio de responsabilidade e da escolha de ser livre. Nos meus textos, nos meus pensamentos, muito da responsabilidade e dessa escolha, toma parte das minhas ocupações. Eu vejo claramente que muitos dos problemas que eu enfrentei, foram problemas que eu mesmo criei. Alguns filósofos, por exemplo, se eu não me engano Pirro, escolheu não falar mais. É muito difícil nós nos livrarmos dos problemas. É muito difícil nós suportarmos a nossa própria solidão. Mas isso pode também ser um presente, uma dádiva, um ato de criação, um exercício de liberdade e de compreensão da vida mais profunda. Eu costumo estar sempre muito bem na presença de pensadores, de livros que me fazem dialogar num universo inteligível e que procura muitas vezes trazer para mim um certo conforto existencial da sabedoria clássica, dos antigos. Essa forma de organizar o pensamento não seria o próprio equilíbrio para o bem-estar? Todas essas questões me interessam profundamente e o ato de fazer filosofia – mesmo que na maioria das vezes através das minhas próprias meditações – me trazem um grande consolo para a vida, mas também me impulsionam para a vida, para aquilo que eu devo realizar, para aquilo que eu quero realizar. Não só nos atos das minhas próprias investigações, mas das minhas projeções, para quem eu ainda quero ser, para quem eu ainda posso ser, para a força que eu ainda tenho, para alcançar certas plenitudes das minhas realizações, dos meus ensejos, dos meus desejos e das minhas necessidades. Manifestando dádiva, alegria e agradecendo pelo fato de estar vivo. Eu acredito que esse exercício é muito importante para que eu possa encontrar a minha própria harmonia. Gradativamente eu vou me desprendendo da necessidade de construir um legado. Durante muitos anos eu fui jogado nessa esteira e hoje eu vejo que o legado também é uma ilusão. Na verdade, o que existe são apenas os instantes do momento presente. Saber aproveitá-los compartilhando prazeres, alegrias e também tristezas com as pessoas que nós gostamos talvez seja uma das coisas mais importantes que nós podemos fazer aqui nesse planeta. Saber reconhecer as possibilidades e compreender as próprias limitações é um exercício de sabedoria. Saber separar o joio do trigo, saber observar e, ao mesmo tempo, examinar a ambição que por um lado nos motiva, nos propulsiona e pode nos proporcionar realização no sentido de felicidade. Também é importante no aspecto do risco, da proporção, da medida e das verdadeiras necessidades; procurar equilibrar e distinguir os caprichos das necessidades; meditar com Sêneca, com Marco Aurélio, com os estóicos, que nos trazem pistas para uma vida mais adequada. Durante muitos anos da minha vida eu vivi o êxtase dionisíaco. E não que ele não seja importante; ele é fundamental principalmente nos primeiros anos da nossa juventude, da nossa mocidade e … por que não até agora? Desde que isso não se torne um vício, algo que caminhe fora de uma moderação. Aristóteles nos ensina o caminho da moderação, assim como os filósofos pré-socráticos. A vida é uma constante ponderação e uma moderação – dos sentidos, dos prazeres e do equilíbrio para o próprio bem-estar. Compreender a dor como algo absolutamente natural. O desconforto como algo presente e o conforto como um brinde de satisfação. Aí mora a verdadeira felicidade, um encontro com essa compreensão, com a distinção. Compreender o bem e o mal, superar maniqueísmos, mas procurar ser bom como o próprio Sócrates e Jesus nos indicaram. Procurar ser bom para nós mesmos e bom para os outros. Livre. Um exercício gratuito para alcançarmos a fortuna que está próxima à sorte. Saber que a felicidade é uma constante economia. Economia de prazer, economia de desejos… afinal “rico não é quem tem mas é quem menos precisa”, como dizia meu pai. Encontrar a simplicidade das coisas e distinguir as ilusões do real. Poder até frequentar as ilusões, mas saber que isso é apenas um artifício que alimenta a nossa vaidade. Mas o que realmente alimenta a alma, o que realmente nos motiva e que pode nos motivar para continuarmos caminhando está na simplicidade. Na simplicidade de simplesmente ser… livres… de quaisquer estereótipos, rótulos. Superar a questão das aparências. Aquilo que aparece é verdade, que são manifestações do nosso ser ou dos nossos múltiplos seres plurais – como eu costumo dizer. Os conceitos que eu tenho trabalhado são conceitos para preencher um conforto existencial nas grandes incertezas do nosso tempo. Procurei falar sobre o que é o contemporâneo, sobre uma filosofia que aborda a questão do desamparo, as possibilidades de existir, das multiplicidades de ser ou melhor dizendo, das pluralidades de ser. Todas essas questões têm estado muito presentes em mim. Estou com 38 anos de idade, já experimentei muitas coisas na minha vida e hoje vejo que as grandes necessidades são maiores no estar feliz comigo mesmo. Para inclusive que possa estar com os outros mais pleno, mais presente. As banalidades, as vulgaridades fazem parte do cotidiano das nossas vidas, mas o espírito para que possa viver, enriquecer é necessário estar em contato com ele mesmo. Jung chamou isso de ipseidade, de processo de individuação. Nós não seríamos apenas um jogo de forças, de interpretação. O que é a nossa essência? A Ontologia procura estudar isso. O método parece investigação – pode ser a própria fenomenologia. Isso me interessa muito, no sentido ético, do modo de ser ou dos modos. Quanto mais plural, quanto mais possível, mais excesso de força [XX não entendi – 14:19] . Uma força que se lança em várias direções. Outrora abria muitas frentes. As exposições eram muito caras para mim. Hoje vejo que essas exposições já não valem tanto a pena assim. Vejo que essas exposições me trouxeram sim ensinamentos, reflexões, aprendizados, volúpia, uma certa desordem, uma euforia, o êxtase dionisíaco… mas também me ludibriaram de mim mesmo, me jogaram para longe de mim. É voltando, compreendendo onde estou que posso continuar seguindo o meu caminho. Essas meditações são importantes para que eu possa estar bem comigo mesmo e procurar a saúde e o equilíbrio. Como o próprio Nietzsche disse, o conceito da grande saúde, de estar com saúde. Grande parte da vida, ele dizia, é o homem em decadência com ele mesmo. É preciso que a gente se acostume com isso, que a gente saiba disso, que a gente enfrente isso. Sim, há um drama, um declínio, nessa tragédia, no ato de envelhecer. Mas ao mesmo tempo, essa lucidez, esse clarão existencial, essa sobriedade, é necessária para uma vida mais plena. Pode ser até entediante em certos aspectos, mas que o ato da criação sempre esteja presente. Que o fogo ardente do espírito crie, reproduza e gere múltiplas possibilidades de escolhas. As artes me trouxeram muitas alegrias. Mas, como eu disse, não foram suficientemente fortes para que meu espírito estivesse preso a elas. Eu tive que superá-la, eu tive que ultrapassar para poder resistir e continuar. Sim, como Ferreira Gullar dizia, a arte existe porque a vida não basta. Mas eu tenho tentado fazer com que a vida baste, fazer com que a vida seja suficiente pelo que ela é. Fazer com que a metafísica não seja um recurso de um escapismo, mas que seja um reflexo das minhas necessidades e das minhas disposições interiores. Heidegger dizia que a angústia e a morte são questões fundamentais – no aspecto da angústia ser esse confronto com a morte. No seu livro “Ser e Tempo” ele relata essa questão e percorre o caminho do sentido da vida nesse confronto, nessa única certeza que nós temos. Mas até lá, a beleza desse trajeto está em nossas mãos e cabe a nós mesmos garantirmos essa presença, essa necessidade de estar vivo, de se reconhecer, de reconhecer e se reconhecer, de traçar um caminho diferente, de construir uma ponte para um lugar inexplorado, desbravar, abrir caminhos, ultrapassar as próprias fronteiras de um conhecimento que foi limitado. Estudar, estudar muito e conhecer aquilo que é dito para que a gente possa dar um salto para em direção a algo novo. Que as nossas sinapses, que as nossas criações sejam capazes de superar aquilo que veio antes. Santo Agostinho já explorava e dizia que os pensadores, os filósofos, mortos é que conduziam os caminhos da humanidade. Então é preciso ler e reler para saber o que de fato é pensamento nosso ou é pensamento daqueles que vieram antes. E mesmo quando for, ou quando forem pensamentos daqueles que vieram antes, de que forma eu consigo criar uma conexão para algum lugar diferente e como eu posso falar isso da minha forma, da minha maneira, sendo autêntico como o próprio Heidegger dizia. A autenticidade é uma grande vitória do espírito e é para esse lugar que eu vou.

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