Outro instante

Para compreendermos a atualidade, e para respondermos o que é o contemporâneo, é importante investigarmos o passado. É através dos clássicos e da filosofia antiga que podemos dar um salto de compreensão das coisas e consequentemente construirmos uma ponte para um novo tipo de homem. E que tipo de homem seria esse? Durante o passar do tempo muitos filósofos, muitos pensadores, procuraram compreender os fundamentos do ser. Para isso damos o nome de “ontologia”. A ontologia é o estudo do ser humano no seu sentido mais fundamental. Heidegger teve uma contribuição muito vasta para a compreensão do ser humano. No seu livro o “Ser e Tempo”, e também “Introdução à metafísica”, Heidegger nos fornece pistas e possibilidades de compreensão do ser. O ser, segundo Heidegger, é o “ser-aí”. Em alemão essa palavra se chama “das sein”. O ser-aí é algo que está dado, que está posto no tempo e não há nada que possamos fazer com isso. Para nós compreendermos a filosofia de Heidegger e para também ampliarmos o nosso vocabulário é muito importante investigarmos os princípios que antecedem Heidegger. Ele mesmo faz essa investigação no seu livro “Introdução à metafísica”, fundamentando-se em Aristóteles. Aristóteles cria as bases da ciência moderna. Ele faz isso através de uma profunda investigação no ser humano, criando princípios lógicos para poder explicar o ser humano e fornecendo a nós um recurso metafísico – sendo o recurso do ato e da potência para explicar o tempo. A atualização da potência acontece no devir. Ele resolve o aspecto problemático que a filosofia se depara entre Parmênides e Heráclito. Parmênides seria o primeiro filósofo essencialista, nós poderíamos dizer, que criou as possibilidades de uma filosofia essencialista com o problema do ser e do não-ser. Já, por outro lado, Heráclito resolve a questão do movimento conforme o movimento dos contrários – que é como ele mesmo diz: “É pelo movimento dos contrários que se faz a mais bela harmonia”. Heráclito traz a noção de movimento, a noção de transformação. Essa noção é fundamental ao longo da história da filosofia e do pensamento ocidental e influência pensadores-chaves para a revelação do novo. Tanto Nietzsche como Heidegger e mais tarde, Foucault, se influenciaram nessa linha de pensamento. Mas é pelo estudo da metafísica e pelos fundamentos que Aristóteles nos coloca, que nós conseguimos resolver a questão do movimento e a questão do tempo – através desse conceito-chave de ato e potência. Esse conceito-chave reúne em si o devir. O devir nos dá uma ideia clara daquilo que nós podemos ser. Recentemente eu escrevi um texto, cujo título é “A personalidade… ou melhor…a construção da personalidade e a multiplicidade dos seres”. Nesse texto eu procuro compreender de forma ampla a construção da personalidade – nada mais sendo do que uma escolha existencial. A escolha existencial que nós somos é muitas vezes aquilo que nós revelamos em nossa personalidade. Os gregos, através da paideia e da tragédia grega – e o teatro principalmente – e a política, nada mais são do que manifestações das nossas expressões, das nossas máscaras. Desde cedo é importante que a educação tenha uma preocupação estética e ética no aspecto de uma formação de um indivíduo livre que procure se expressar através da revelação da sua ou das suas identidades que, a meu ver, são posteriores ao estudo ontológico, ao estudo do ser humano no seu aspecto fundamental – na ontologia. A ontologia é o fundamento primário para a revelação da nossa personalidade. A organização da psicanálise, dessa ciência freudiana, ela nos dá uma série de ferramentas importantes para a revelação do ser. Mas eu acredito que a psicanálise é importante no seu sentido de revelação do nosso desejo e consequentemente de realização desse desejo. Freud investiga de forma vertical a psiquê humana e, não muito diferente do que eu estou dizendo, procura nos clássicos e na mitologia explicação para a sua ciência, fundamentando-se no complexo de Édipo como alicerce fundamental da construção do seu edifício conceitual.

Eu procuro através dos meus exercícios filosóficos construir uma ontologia pautada em todos esses pensadores. É através da filosofia da diferença percebendo justamente a diferença de uma filosofia para outra, de um modo de pensar para outro que eu consigo fundamentar a minha existência e proponho um caminho para essa existência pautado em todos esses pensadores e também no próprio Sartre. Como eu não poderia revelá-lo. A ideia de responsabilidade e a ideia de liberdade são muito caras para mim, no sentido das minhas escolhas e do peso dessas escolhas. O ser humano escolhendo e se responsabilizando por aquilo que ele escolheu. Isso seria o homem maduro com ele mesmo. Assumir o peso existencial das suas próprias escolhas é escolher ser livre. No seu livro, Sartre traz para nós a noção e a ideia de que o existencialismo é um humanismo. Trazendo a nós a possibilidade da recuperação, na minha leitura, da dignidade humana e o princípio de solidariedade como fundamento importante do ser, assim como o princípio de individualidade. Foucault traz a nós uma investigação da história, da filosofia, e dá uma contribuição grande à psicologia quando ele faz o estudo das diferenças em seus livros – seja no aspecto e no campo da sexualidade ou no campo da moral com a questão do “Vigiar e Punir” e da “História da Loucura” e do aparecimento das clínicas. Estudando justamente os delinquentes para poder compreender melhor a noção de sujeito que ao longo do tempo e ao longo da história nós construímos. Ele faz a mesma investigação e usa a mesma metodologia, a mesma abordagem, na “História da Sexualidade” – e isso nos revela múltiplas possibilidades de identidade. Essas multiplicidades de identidade acabam trazendo a nós a ideia desse sujeito e a ideia desse sujeito que foi constituído ao longo do tempo, ela é múltipla – e por essa razão o meu interesse e o meu fascínio pelo estudo da multiplicidade dos seres na compreensão das suas potências mais diversas. Nietzsche reconhece em seus textos póstumos, naquilo que a irmã dele reuniu, e chamou-se de “vontade de poder” – ou “vontade de potência”, dependendo da tradução – ele traz a nós a ideia do filósofo artista, que seria o andarilho e a sua sombra. Que seria, segundo ele, o homem, ou melhor dizendo, o super-homem  nietzschiano – sendo aquele que conseguiu fundamentar a sua existência em si e construiu a sua ponte a partir desse devir incessante e que usa a arte como religião, no seu aspecto de criação. Minha propositura para compreendermos o que é o contemporâneo, ela está mais enraizada no aspecto da possibilidade do olhar do outro para nós. Porque a minha aposta é uma aposta existencial em mim mesmo, mas é uma aposta existencial no outro. É caminhando no sentido do outro, na direção do outro, que eu me reconheço como sujeito. Não é o meu eu ensimesmado, isolado. Jung nos dá essa possibilidade de transformação e de reconhecimento do outro no seu conceito de individuação. O caminho da individuação ou da ipseidade do Jung, é um caminho para que a gente consiga dar esse salto ontológico para o coletivo. O inconsciente coletivo e o caminho da individuação de Jung nos fornece outras pistas, outras portas de abertura essenciais para a formação e para a minha compreensão de mundo. Ainda mais vivendo na atualidade e tendo a complexidade da atualidade sobre os meus ombros. A psiquiatria é um campo que avançou enormemente ao longo dos últimos anos, ou melhor dizendo, ao longo da segunda metade do século XX. Rotular pacientes e estabelecer doenças são formas científicas que, portanto, absorvem uma parte daquela realidade para poder compreender um estado – um estado de saúde ou de não-saúde. Esse recorte, a meu ver, não abrange toda a realidade e é perigoso no seu aspecto mais essencial. Remédios podem ser prescritos e doenças podem ser e devem ser tratadas, no seu aspecto mais científico e medicinal. Mas isso não significa abandonar a aposta em si. A aposta que o ser humano deve fazer em si – e não se esconder através de uma imagem que ele cria para si mesmo, mesmo sendo essa a imagem de um doente. Então é muito importante, a meu ver, esse perspectivismo, essa mudança de posicionamento – para a compreensão e para a revelação de si mesmo através do olhar do outro e a não-desistência dessa aposta em si, é o que possibilita o salto ontológico no sentido, na direção da própria compreensão de si mesmo e do outro. Esse exercício ético, esse exercício estético, essa metafísica, a meu ver, possibilita a constituição de si mesmo – independente da promessa da existência de um Deus superior, de algo fora do homem ou da promessa de uma continuidade perdida, da nostalgia perdida, como Bataille diz. Os aspectos do erotismo e de Bataille são essenciais para a compreensão desse novo homem que nasce – sendo o homem contemporâneo. O homem contemporâneo precisa lidar com toda a diversidade da sua realidade atual. Ele está circunscrito nesse momento, ele foi jogado nesse tempo – ele precisa saber lidar e revelar esses aspectos da totalidade. Ele precisa conseguir digerir toda a história em si para poder propor um caminho novo e para poder edificar-se no tempo com o princípio da criação. O princípio da criação é o que reúne as possibilidades da salvação – mesmo que de uma forma instantânea. Da mesma forma que uma profissão pode nos proporcionar essa condição de autorrealização, de realização de um ofício e do reconhecimento da excelência através desse ofício. Todos esses fundamentos caracterizam a multiplicidade dos seres e a construção da personalidade. A compreensão disso traz a possibilidade desse salto ontológico.

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