A necessidade da criação de si mesmo como a necessidade diária da criação de si mesmo e da aparição no mundo. Somos sujeitos incompletos e que precisamos todos os dias nos criar para aparecer no mundo, para nos revelar no mundo. O ser é algo que está constantemente em transformação em movimento e a necessidade de criação e da realização do ser no mundo é uma necessidade permanente. Na realidade é uma necessidade mais do que diária, é uma necessidade … a cada instante que nós vivemos, nós precisamos nos criar e nos revelar. A solidão é um estado natural e é por meio da solidão que nós conseguimos perceber essa caracterização – aquilo que nos faz humanos. Acreditar que um determinado tipo de caráter, que um determinado tipo de personalidade é algo definitivo, é uma ilusão. Nós acabamos muitas vezes criando imagem, projetando imagem das pessoas e do mundo para poder nos identificar com o mundo, para poder nos relacionar com o mundo, para poder nos significar com o mundo. Mas isso não significa que o mundo seja isso, mas não significa que nós somos isso. Nós somos uma contínua construção de nós mesmos a cada instante. Eu sempre falo que o nosso vocabulário é a maneira que nós nos encontramos ou melhor, a maneira que nós encontramos para poder revelar a realidade – através das palavras, através das imagens. Quanto maior o nosso repertório visual, quanto maior o nosso repertório imagético, quanto maior o nosso vocabulário, mais possibilidades nós temos de existir e permanecer no mundo. A permanência no mundo é um estado da criação e é um estado que demanda a criação e a revelação de nós mesmos no mundo. O teatro é uma maneira muito inteligente de identificação, de revelação, de construção, de personas, de personalidades. Eu tenho estado muito atento às possibilidades do teatro – não necessariamente para atuar ou para dirigir um espetáculo. O meu espetáculo é a vida. O meu palco é a vida. Cada instante se revela um ensaio. As peças são aquelas que pregamos para a nossa necessidade de sobrevivência e de algum tipo de permanência. Não vamos nos iludir, porque essa permanência, é claro que ela é temporária. Assim como a nossa obra no mundo é temporária. Hoje eu aprecio a beleza dos instantes. Isso me torna lúcido, me torna consciente e me traz a potência da realização do meu ser no mundo. Isso é estético, é ético, e através desse exercício – do ser – eu me possibilito experimentar a responsabilidade, ou melhor, a liberdade com um menor peso da responsabilidade. Tenho, ao longo do tempo, tirado carga das minhas costas para poder experimentar a liberdade com um sabor mais doce.

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