Eu tenho tratado com uma certa frequência um tema que é bastante importante para mim – um tema que é muito caro para mim – que é a ontologia, que é o estudo do ser humano. Todos os dias, de forma recorrente, eu procuro examinar caminhos e possibilidades existenciais. Eu chamo isso de georreferenciamento de si mesmo. Eu me apoio em muitos pensadores que vieram antes e que trouxeram recursos a respeito dessas possibilidades de pensar para nós. Por exemplo, o estoicismo… Marco Aurélio foi um pensador que nos revelou a possibilidade de encontrar o nosso espaço, de encontrar o nosso lugar no mundo. No entanto, esse lugar no mundo que Marco Aurélio traz à nossa reflexão, a meu ver, ele está em constante movimento e transformação. Daí eu cito com uma certa frequência nos meus textos, nas minhas gravações, o pensamento de Heráclito – no aspecto do movimento, no aspecto da transformação. Eu li recentemente que Santo Agostinho teria, talvez pela primeira vez na história, criado uma perspectiva de responsabilidade, no sentido filosófico, para o ser humano. Isso me chama a atenção e me leva, obviamente, a Sartre – no aspecto da liberdade e da responsabilidade. Eu tenho procurado com todas as minhas forças, construir um método, construir um caminho que seja… talvez um método seja muito científico demais para aquilo que eu quero. Eu não quero necessariamente entregar uma fórmula, eu não quero entregar uma bula de um remédio. O que eu tenho procurado fazer comigo mesmo é viver sem remédio, viver sem medicamento. Viver desamparado da psiquiatria, viver desamparado da psicanálise, viver desamparado da psicologia, viver desamparado da religião, da ciência, do senso comum, das artes. Esse desamparo existencial tem me caracterizado recentemente. Isso é muito interessante. Porque por mais que eu tenha atividades práticas, negócios, responsabilidades… eu tenho procurado criar espaços vazios para preencher a minha existência através do princípio da criação. Eu tenho chamado isso de “o homem contemporâneo”. Na verdade, eu não tenho chamado dessa forma não. Eu tenho sempre feito a pergunta: “O que é o contemporâneo?” e para isso eu tenho respondido dessa forma, eu tenho respondido dessa maneira. Que o homem contemporâneo, tomando a mim mesmo como exemplo, seria esse o homem desamparado de todas as coisas. Mas que se sustenta continuamente pelo ato da criação. Arte como religião, arte como religar-se. Essa preocupação ontológica, tem nutrido a minha existência para além das questões biológicas. O excesso de força, o excesso de potência, é o que possibilita o ato da criação. E consequentemente o divino, o milagre da vida, isso é fruto de um excesso de potência que se resolveu de várias formas. Mas principalmente, resolvendo as suas necessidades básicas de sobrevivência. O artista, o pensador, é aquele que cria um espaço para poder viver para além das próprias necessidades da sua própria sobrevivência. Isso é estético, isso é artístico – possibilitar novos significados existenciais através da linguagem. A linguagem como manifestação de expressão, de necessidades interiores, ontológicas. A metafísica como uma possibilidade existencial para além das necessidades ordinárias da vida. Mas não só para além das necessidades ordinárias da vida no seu aspecto criativo, mas no seu aspecto significativo e, consequentemente, ético, estético. A moral como decorrência dessa criação constante. Para isso eu sempre tenho procurado instigar as pessoas – que não são muitas, obviamente, que estão interessadas em fazer filosofia – mas aquelas pessoas que se nutrem do conhecimento para sua própria criação e para o seu próprio desenvolvimento de linguagem. Daí eu tenho instigado essas pessoas a estudarem a história, a história da filosofia, e estudarem também os textos filosóficos de filósofos que vieram antes de nós. Eu tenho procurado preencher lacunas importantes para a construção de mim mesmo, ou melhor dizendo, para a construção do meu pensamento filosófico. Para que eu possa afiar esse pensamento, eu tenho procurado preencher essas lacunas, tenho estudado mais pensadores contemporâneos como Michel Foucault, como o Deleuze, a Hannah Arendt, entre outros. Tenho estudado esses pensadores mais recentes porque me deu muito trabalho conseguir compreender, estudar, examinar, os pensadores antigos. E não foi obviamente por preguiça, mas por falta de tempo. Eu tenho procurado preencher essas lacunas para poder avançar no campo do meu próprio pensamento. Os meus diálogos recorrentes, as minhas interlocuções, os meus interlocutores têm sido esses pensadores que eu me apoio. Schopenhauer uma vez disse que a solidão dele era muito grande. E talvez justamente por isso que ele conseguiu escrever tanto, porque ele foi procurar nele mesmo possibilidades do pensar extremas. Subiu as suas próprias cordilheiras, as suas próprias montanhas e foi visitar lugares extremos em si mesmo, para poder conhecer mais a respeito de si mesmo e consequentemente do outro. Eu tenho procurado trazer para o meu pensamento, como uma saída ontológica, me apoiando em Sartre, em Heidegger, em Nietzsche, em Kierkegaard, entre outros pensadores, até mesmo no próprio Spinoza… uma saída ontológica que valorize o ser humano, que não negue a possibilidade da individualidade. E a Ayn Rand que é essa pensadora norte-americana… na verdade ela é do leste europeu – se eu não me engano ela é russa. Ela foi uma pensadora sobretudo que influenciou o campo econômico, fundamentou muito o capitalismo americano no seu aspecto importante e bárbaro talvez – porque ela valorizou o individualismo ao extremo. E eu acho isso importante, como um fundamento no sentido daquilo que nos constitui. A construção da própria identidade ela é muito importante para a constituição de um sujeito autônomo, que é por sua vez responsável por suas escolhas, livre para o ato de pensar, mas que também considera como perspectiva o olhar do outro. Isso não significa anular-se ou deixar-se ser enganado pelo olhar do outro, ser manipulado facilmente – não é isso que eu estou dizendo. Acredito que recursos são muito importantes para a própria autoproteção, mas a coragem e o enfrentamento de ainda assim apostar em si e no outro, para mim é uma coisa muito bela – por mais difícil que seja, por mais arriscado que seja. A medida da própria segurança está na proporção, no quanto esses avanços podem ou não serem feitos. Claro que a melhor companhia precisa ser a gente, com a gente mesmo. Estava lendo que Sócrates falava sobre o bem no aspecto de fazer o bem porque conhece o mal e isso é uma escolha. E aquele que não o conhece… o mal e pratica o mal, isso é um ato de ignorância. Mas aquele que conhece o mal e ainda assim escolhe praticar o mal, isso seria um ato de maldade. Por exemplo, no caso de um assassínio, um assassino – alguém que cometeu uma atrocidade dessa, que praticou o homicídio e precisa conviver com isso, ele faz o mal para ele mesmo. Então ele seria uma péssima companhia para ele mesmo. Esse olhar é muito interessante, principalmente quando a gente traz o aspecto da morte de Deus. Nietzsche é muito categórico com essa questão, até mesmo porque teve um pai que foi um pastor luterano – tem um aspecto psicanalítico, psicológico muito interessante neste contraste de Nietzsche com o pai que merece uma investigação maior. De toda forma, “O Anticristo” e “Deus está morto”, uma crise que abala com uma profundidade muito grande o final do século XIX, início do século XX, assim como outras crises que foram impostas por pensadores como Copérnico por exemplo – ao criar uma teoria que desloca a Terra como centro do universo e coloca o Sol como centro do universo. O próprio Freud diz isso, que isso é um abalo muito grande para a vaidade humana. Assim como Darwin também, ao tirar essa perspectiva divina, apoiando-se também na tese, vamos chamar assim, de que Deus está morto, traz para nós uma outra crise no aspecto… com a sua teoria da evolução, a evolução das espécies, também desloca o ser humano do centro e consequentemente abala a nossa estrutura psicológica. Freud vai dizer que ele seria o terceiro pensador que teria abalado a vaidade humana com a sua teoria do Complexo de Édipo. Eu vejo que muitos pensadores abalaram as suas estruturas – as suas não, as nossas. E todos esses abalos, eles constituem um espaço para algo novo ser preenchido e criado. E como eu estava dizendo, no século XXI que nós vivemos com tantas multiplicidades de seres, possibilidade existenciais, avanços em vários aspectos, dificuldades em muitos outros – é importante não esquecer a perspectiva ética de considerar… de considerar-se e considerar o outro para uma forma de viver em sociedade menos individualista, ou melhor, individualista mas ao mesmo tempo em harmonia com os outros. O indivíduo para poder conviver melhor em sociedade, precisa conviver com ele mesmo, superar o aspecto da banalidade das coisas, conseguir ultrapassar a fronteira do banal, entrar no aspecto mais profundo, desvelar máscaras, lutar contra preconceitos e representações estereotipadas. Tudo isso é muito importante para a formação de um novo sujeito. Foucault explora muito a ideia de sujeito. Eu gosto de pensar na ideia de “ser e vir a ser”. O próprio Freud chega a questionar a ideia de indivíduo. Então a saída é a criação, a criação de si mesmo e Nietzsche vai dizer a transvaloração de todos os valores. E ele vai até ousar dizer que nas 3 metamorfoses do espírito, no seu livro “Assim falava Zaratustra”, que o indivíduo deveria ser aquele que supera a si mesmo em 3 fases: na fase do camelo – é quando ele leva ainda a moral na sua bagagem -; na fase do leão – quando ele quebra com essa moral; mas só na terceira fase, na fase que ele volta a ser uma criança, mas no aspecto já mais maduro de um esquecimento das coisas, para que ele possa se divertir novamente com as mesmas coisas. Isso seria a transvaloração de todos os valores. O conceito de “eterno retorno” do Nietzsche, é um conceito muito radical. Talvez seja um dos conceitos mais radicais que alguém já produziu, porque pensar sobre o peso, ao mesmo tempo, a possibilidade de você retornar inúmeras vezes, pode ser um peso, mas pode ser um alívio. Eu encerro hoje essa gravação com essa alegria, com essa alegria de dividir o eterno retorno de uma forma afirmativa – que é como o próprio Nietzsche gostaria que eu tivesse essa postura afirmativa frente a vida – e hoje eu tenho. Obrigado!

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