O preço da simplicidade

A filosofia do desamparo é um entendimento de mundo que a princípio pode parecer um tanto quanto cruel – no aspecto do indivíduo não se consolar, não se recolher a determinadas doutrinas, dogmas e situações, composições existenciais que possam torná-lo mais seguro no mundo. Por outro lado, o desamparo ele é libertador no aspecto do fortalecimento do indivíduo. Por mais duro que seja a visão de mundo ou melhor, essa visão de mundo, cultivar essa visão de mundo – que é uma visão de mundo que eu entendo que é muito próxima do real, isto se não for o próprio real, como ele é, como ele se apresenta – todo o esforço, toda a busca de sentido, toda forma de organização, todo empenho, nasce a partir dessa perplexidade da realidade e consequentemente desse desejo de vitória,  desse desejo de superação dessa condição que de partida se apresenta de forma miserável. Agora, não adianta buscar no material, por exemplo, um sentido de consolo pra fatalidade da vida. Compreender a fatalidade, o fatalismo, e não recorrer ao material é não precisar necessariamente de dois relógios, dois carros, uma casa maior – tudo isso não muda, não altera e não traz, necessariamente mais conforto para o estado de percepção do indivíduo no mundo, concentrado com ele mesmo, compenetrado. É o entendimento da vida como ela é e ao mesmo tempo, um certo nível de cultivo de ceticismo em relação a todas as coisas, mas sem deixar com que isso se torne maior do que o sentimento de continuidade da vida – no aspecto de celebração da vida, na busca pela alegria, na distração como forma de alegria. O preço da lucidez é uma certa seriedade, uma certa sobriedade no cotidiano.

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