Carta a um amigo imaginário

Esses dias tenho pensado em você. Pensei na nossa liberdade e na vida que tínhamos nos nossos vinte e poucos anos. Lembrei-me das músicas que escutávamos e das viagens de carro que fazíamos.

Foi uma época boa, que agora se tornou nostalgia.

Não que a vida hoje não seja feliz — é sim — mas me falta o risco da juventude, aquela falta de noção das consequências e das escolhas quase inconscientes.

É evidente que o amadurecimento traz consigo um processo de individuação e uma outra forma de liberdade, mais consciente e responsável pelas próprias escolhas. Existe beleza e satisfação nisso.

Mas a força dos primeiros impulsos e desejos jamais será alcançada em um corpo que envelhece e se desgasta.

Por isso precisamos nos concentrar em eliminar as comorbidades e os desgastes dos órgãos que envelheceram, substituindo célula por célula através de uma dieta rigorosa, períodos intensos de atividade física, alongamento e fortalecimento dos membros inferiores, para garantir melhor circulação sanguínea e evitar processos degradantes.

Durante muito tempo tive medo da palavra karma e de tudo o que ela representa. Hoje esse medo se tornou realidade — e aquilo que antes era ameaça virou parte de quem sou. O karma se introjetou em mim sem aviso nem hora marcada, para me revelar quem sou e me esclarecer diante de mim mesmo. Como se fosse necessário passar a limpo aquilo que sou, para então escolher — ou não — repetir os mesmos comportamentos e atitudes.

Aqui também precisamos falar da culpa e de tudo aquilo que ela representa.

A culpa é o maior peso de todos. Devemos exercitar diariamente a capacidade de liberar o peso da culpa e do ressentimento daquilo que fizemos e escolhemos. O não arrependimento é uma libertação.

Ficar preso no ciclo do arrependimento e do perdão é um processo ainda mais desgastante e pouco saudável.

A vitalidade e o vigor caminham lado a lado com a juventude — que é irresponsável e precipitada.

Claro que não defendo excessos ou a predileção da nossa sombra sobre aquilo que reconhecemos como luz e virtude. Mas precisamos abraçar a sombra para iluminar quem somos. Não adianta esconder — ou se esconder — de si mesmo. O tempo nos encontra em qualquer lugar.

Até que esses processos se tornem conscientes, chamaremos de karma tudo aquilo que nos faz sofrer. Mas o sofrimento deve se limitar a perdas reais e temporárias.

Não podemos perder tempo com mágoas e inimigos.

Devemos aceitar o que estamos vivendo e suportar as consequências das escolhas que fizemos — sempre em defesa da nossa liberdade e da nossa dignidade.

Não devemos prestar contas a ninguém além da nossa própria consciência.

Se em outro momento nos desgastamos para provar algo a nós mesmos, agora devemos apenas aceitar quem somos e depurar o que ainda precisa ser purificado, até restar apenas o essencial.

Isso não significa negar o mundo ou o universo material.

É obsoleto pensarmos em dualismos rígidos e paradoxos irreconciliáveis, sobretudo hoje, com tanto acesso à informação e facilidade de comunicação. Podemos — e devemos — incorporar muitas versões de nós mesmos.

Não precisamos brigar entre essas versões: elas podem coabitar momentos distintos, de acordo com os nossos desejos e necessidades.

Os prazeres são bem-vindos.

Mas isso não significa sermos orientados por eles.

A liberdade absoluta é a ausência de submissão a qualquer predileção ou vício.

Devemos saber viver com aquilo que temos.

Devemos apreciar aquilo que conquistamos — com humildade e gratidão.

O que desejo para o próximo ano é nada mais.

Aprendi a me contentar com o essencial e a ser feliz dentro de uma rotina simples e familiar.

Hoje tenho mais prazer em dar do que em receber — e acredito que isso é uma virtude.

Tenho medo de perder, mas estou aprendendo que perder também é amadurecer.

Isso me deixa mais calmo e sereno.

Não querer controlar tudo também é sabedoria.

Viver para Deus e para aquilo que podemos fazer; investir tudo da melhor forma possível; evitar desperdícios; economizar o que podemos.

Acho que foi por isso que resolvi escrever novamente, de forma tão honesta e desprendida: para registrar e compartilhar esses pensamentos.

Talvez eles possam servir a alguém.

Seria egoísta guardá-los só para mim.

Por isso me desprendo deles — e de quem fui — para que algo novo ainda possa brotar em mim.

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