Tenho procurado registrar a minha opinião, os meus pensamentos, a respeito de variados assuntos. Sobretudo a respeito da psicologia, a respeito da contemporaneidade, do fazer filosofia, da psicologia no seu aspecto da preocupação com a qualidade da vida, com a qualidade do desempenho das nossas vontades, das nossas realizações, da ontologia – no sentido do conhecimento do ser humano – e de que forma nós podemos nos tornar cada vez mais expressões e realizações daquilo que nós desejamos. Então o ato, o exercício de fazer filosofia, para mim, é uma possibilidade de experimentar o nosso ser, de entrar em contato com os nossos desejos, com as nossas vontades. E não só contemplar as nossas realizações, mas também de possibilitar mais recursos, mais possibilidades existenciais para nós mesmos, contribuindo para o exercício da realização dos outros. Fazer as pessoas felizes é um desafio – nos realizar fazendo as pessoas felizes é uma missão. Hoje eu queria falar a respeito do papel da arte. Ao invés de perguntar simplesmente o que é a arte. A pergunta “o que é a arte?” ela é uma pergunta reflexiva, é uma pergunta que provoca um exercício, que provoca um entendimento, variadas compreensões a respeito do tema. Difícil a gente poder significar como os filósofos costumam fazer “a coisa em si”. A gente procura falar a respeito da coisa deslocando o nosso ponto de vista, deslocando os nossos pensamentos, por um certo perspectivismo. Talvez a coisa em si ela não exista, a coisa em si ela é sempre uma coisa em transformação – principalmente quando falamos a respeito do ser, diferente de quando nós falamos de um objeto. Embora o próprio objeto seja algo temporário, então a brevidade da vida e das coisas da vida é um exercício de reflexão. Ainda gostaria de falar mais sobre isso. Sêneca relatou essa passagem em um livro muito interessante “Sobre a Brevidade da Vida” e eu recomendo a todos vocês. Voltando à questão do papel da arte… falar do papel da arte talvez seja mais simples do que a gente procurar esclarecer o que é arte, entrar em diferentes contatos com a arte. O papel da arte talvez seja muito mais um papel necessário no aspecto de tornar a existência mais agradável. Se eu não me engano, o Ferreira Gullar tem uma frase “A arte existe porque a vida não basta”. A arte seria um empenho de algo que traz… vamos colocar dessa forma… uma felicidade, uma pulsão de felicidade maior para as nossas vidas. Seja através de uma música, da poesia, das artes plásticas, de uma imagem, de contemplar uma imagem, entrar em contato com sentimentos que são humanos e que são universais. A arte tem essa característica de ser uma linguagem universal e ela entra sempre em confronto com a subjetividade humana à medida que, quem cria a arte, transmite ali uma carga, ou procura transmitir uma carga de emoção, de significado – ao passo que quem contempla, o espectador que escuta e que no que lhe concerne enxerga, ele vê outras coisas através da sua subjetividade, da sua própria maneira de ver o mundo, da sua cosmovisão a respeito das coisas. Então eu diria que o papel da arte é alegrar as nossas vidas – claro que a arte pode também servir um interesse, como serviu durante muitos anos à igreja. Os bancos, os senhores da arte, de certa forma, acabam mudando – mas a arte sempre tem um elemento transgressivo, um elemento que de alguma forma supera os seus patronos, os seus mecenas, os seus interesses privados por a arte ser uma extrapolação desses interesses particulares. A arte pode servir temporariamente um determinado interesse. Mas quando ela está no mundo ela ultrapassa as esferas dos interesses de quem a criou, de quem a proveu com condições para existir – é isso que torna a arte bela, isso que torna a arte fascinante. E a arte nos serve de alívio muitas vezes. Eu me lembro muitas vezes que eu estava não tão bem e que eu entrei em determinadas exposições que me trouxeram uma alegria muito grande. O Joseph Beuys por exemplo, é um artista que eu me conecto muito e que me trouxe, durante muitas vezes na minha vida, visitando, revendo a obra dele, entrando em contato com a matéria que ele criou, me trouxe de certa forma um amparo, um aconchego. Eu tenho falado sobre isso, explorei um conceito recente da filosofia do desamparo no sentido de nós estarmos sempre de alguma forma, nós pensadores, que estamos sempre confrontando a realidade com um novo questionamento, nós nunca estamos totalmente satisfeitos. Estamos sempre procurando, por conta da nossa inquietude, uma brecha, um caminho para reflexão, para o pensamento, para a nossa adequação de alguma forma. Então a filosofia do desamparo seria algo praticamente quase que insuportável porque é muito difícil você viver o tempo todo só da realidade. A realidade como ela é, ela é muito miserável no seu aspecto real. Ela é o que ela é, e ela não tem nada de extraordinário. A realidade é ordinária, o mundo acontece dessa forma – ordinário. Então os artistas acabam criando o extraordinário, acabam criando a poesia, acabam criando elementos para tornar a vida mais bela. E isso é necessário para a nossa felicidade. Da mesma forma que a religião e a fé têm o seu papel no aspecto de entrar em contato com uma verdade superior, a arte tem também a sua forma de ser e estar, e de questionar, e de provocar, e de fazer acontecer algo diferente. Então o papel da arte, na minha leitura, seria trazer mais alegria para as nossas vidas e também unir as pessoas. O filósofo e escritor russo Leon Tolstói, ele fala sobre isso em um texto que ele escreve nas suas últimas reflexões, o que é a arte. Ele se coloca realmente como um humanista e crente no ser humano, e diz que a arte tem um papel de unir as pessoas porque ela justamente extrapola essas fronteiras das particularidades, ela possibilita um convívio geral.
Isso faz o mundo – eu não vou dizer “melhor”, porque eu não gostaria de ser rotulado como um desses que são os “melhoradores da humanidade”; eu acredito que a humanidade ela é como ela é. Uma visão até um tanto quanto cética em relação à realidade. Mas isso não significa perder o hábito de apreciar a beleza, de apreciar a arte e de criar arte. Também tenho relatado esse ensejo do artista – artista como alguém criador do seu caminho, dos seus instantes e da sua felicidade, criando espaços para poder existir de forma mais plena. Mesmo que seja por instantes, por momentos. Porque o estar não é necessariamente pleno, o estar é o acontecer, é variado, ele acontece de várias formas. E essa é complexidade do ser humano e do contemporâneo, do que é contemporâneo. Sempre estamos procurando caminhos dentro do contemporâneo, porque nós recebemos múltiplas informações, variadas, a respeito de vários assuntos e muitas vezes essas informações acabam nos tirando de nós mesmos. Então a filosofia como fármaco, como caminho, como exercício, ela nos ajuda a nos trazer para nós mesmos para poder encontrar o equilíbrio necessário para a realização da vida. Por isso, a meu ver, o papel da arte seria talvez alegrar um pouco mais as nossas vidas.

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