Quem foi Donizete Soares e qual é a sua contribuição?

Donizete Soares foi um professor de filosofia com uma trajetória marcante, e tive a oportunidade e o privilégio de ser seu aluno. Ao longo de sua vida como educador, ele impactou profundamente muitas pessoas e alunos, transmitindo aprendizados e ensinamentos que ultrapassavam a sala de aula.

Além de ser autor de diversos livros que destacam a racionalidade e a perspectiva filosófica em primeiro plano, Donizete junto de sua companheira Grácia Lopes Lima foi um dos percursores da Educomunicação — que utiliza os meios de comunicação em grupo como ferramenta para instrumentalizar e fortalecer sujeitos autônomos, promovendo o pensamento crítico e a liberdade intelectual.

Seus interesses iam além da filosofia tradicional, abrangendo temas de cunho anárquico e explorando variadas áreas do conhecimento humano. Essa amplitude de visão se refletia em seus escritos e abordagens pedagógicas.

Tive a sorte de ser seu aluno por mais de cinco anos, período em que explorei, sob sua orientação, os ensinamentos dos grandes filósofos da história ocidental. Sua forma de ensinar e compartilhar o saber deixou marcas que levarei para sempre comigo.

Como ele costumava dizer, aprende-se filosofia lendo os textos clássicos, os originais, buscando, por assim dizer, a raiz de todo conhecimento e explorando o seu caráter etimológico no sentido das palavras e da linguagem. Mas, não menos importante, a filosofia também se aprende refletindo sobre os diferentes aspectos da vida cotidiana e discutindo sobre os filósofos e suas ideias.

Foi assim que nossa história começou. Eu, ainda buscando me instrumentalizar, desejava conhecer e entender mais sobre o mundo e, sobretudo, expandir meu vocabulário e, consequentemente, minha visão de mundo. Passamos pelos gregos, e ele me fez apaixonar-me pela Grécia e por tudo o que aquela civilização trouxe de rico e maravilhoso para a história da humanidade: a política, o teatro, a democracia, as artes e todas as contribuições que o mundo grego despertou para a humanidade.

A Grécia foi, e ainda é, um grande paradigma de civilização. Talvez nenhuma outra cultura tenha superado o mundo grego em sua originalidade e na invenção da filosofia, além de tantas outras formas de conhecer o mundo. Os gregos foram os primeiros a romper com o pensamento mitológico e com uma visão de mundo fundamentada radicalmente em crenças. O ato de fazer filosofia tornou-se, nesse contexto, a possibilidade de questionar os deuses e as crenças tradicionais, como nos revela a Apologia de Sócrates de Platão, com sua imensa beleza literária.

Fazer filosofia, portanto, tornou-se para mim uma forma de instrumentalização — uma ferramenta para desenvolver uma visão mais racional e crítica sobre as coisas e sobre o mundo ao meu redor.

Não poderia deixar de citar as qualidades do professor Donizete Soares ao interpretar todos os filósofos que ele quis, de alguma forma, me ensinar e transmitir seu conhecimento. Ele era um excelente “ator”, pois sabia ser lógico e racional ao falar de Aristóteles, mas ao mesmo tempo idealizava com perfeição o mundo das ideias de Platão. Foi nesse contexto que compreendi que um bom professor não é necessariamente alguém que defende uma única convicção ou verdade absoluta, mas alguém que, como ele, abraça todas as verdades.

Foi isso que me fascinou e, de certa forma, expandiu meu vocabulário e, consequentemente, minha visão de mundo. O filósofo é aquele que se permite viver com mais de uma verdade, que se abre para interpretar o mundo de maneiras múltiplas. Como o próprio Nietzsche diz: “Nada é mais perigoso do que as convicções.” Para ele, as convicções são cárceres. Por isso, Nietzsche afirmava que fazer filosofia é filosofar com um martelo, quebrando ídolos com força e coragem. Esse é o tema de seu livro Crepúsculo dos Ídolos, uma obra que trata exatamente dessa necessidade de desconstrução.

Mais tarde, já após o falecimento do meu querido professor Donizete Soares, aprofundei meus estudos por conta própria e conheci os ensinamentos de Heidegger. Com ele, consegui dar mais um salto ontológico em minha forma de ver o mundo, especialmente como artista. Heidegger me ajudou a compreender, no sentido mais profundo, a criação e a produção de obras radicais que dialogassem com a essência do ser humano e a importância da poesia como expansão da linguagem. 

Durante a pandemia, esse amadurecimento filosófico e artístico encontrou um ponto alto. Esse período se tornou um verdadeiro oásis de fertilidade criativa para mim. Foi então que, em parceria com os artistas Kandro e Cabral, criamos uma exposição rica em signos e significados que batizamos de Ontologia. Essa exposição trouxe uma dimensão singular para meu trabalho e para minha visão artística.

Retornando ao Donizete Soares, foi com ele que surgiu a ideia de criar um instituto cujo nome e domínio ainda pertencem a mim: o Instituto Brasis. Esse instituto, que mais tarde se transformou em uma associação sem fins lucrativos, foi realizado em parceria especialmente com meu amigo Bruno Rizzo, que hoje é produtor de vídeos e conteúdos digitais. Na época, Bruno não poupou esforços para me ajudar a realizar esse projeto, assim como outros jovens entusiasmados que desejavam, de alguma forma, contribuir para a sociedade.

Foi nesse contexto que desenvolvemos o projeto Trecho 2.8: Criação e Pesquisa em Fotografia, cujo objetivo era instrumentalizar adultos em situação de rua por meio da arte. Foi durante esse projeto que conheci o artista Edson Fragoaz, com quem tive a oportunidade de realizar meu primeiro mecenato — patrocinando uma exposição e apoiando um trabalho artístico. Edson, que infelizmente já faleceu, desempenhava um papel pedagógico e terapêutico na formação de um grupo que reunia esses adultos em situação de rua.

Levávamos esse grupo ao centro da cidade de São Paulo, mais especificamente à Rua Rego Freitas, para realizar fotografias da cidade. Posteriormente, discutíamos sobre o olhar e a visão de cada um, promovendo reflexões sobre arte e subjetividade. O objetivo era trazer alguma dignidade a essas pessoas, sem necessariamente adotar um caráter assistencialista no sentido tradicional.

Não que desconsiderássemos a importância da assistência imediata — oferecíamos bolsas aos participantes —, mas esse auxílio estava condicionado ao engajamento no projeto e ao cuidado com os equipamentos fotográficos disponibilizados. A proposta buscava criar um ambiente de respeito e comprometimento mútuo.

Enquanto isso acontecia, eu desenvolvia uma fusão entre o mundo dos negócios e o mundo da arte, por meio de um projeto que batizei de Op Art. Tratava-se de uma boutique de óculos de sol localizada na Rua Oscar Freire, criada em parceria com o publicitário Washington Olivetto e o renomado arquiteto Ruy Ohtake. O conceito da Op Art buscava homenagear o movimento artístico homônimo da década de 60, destacando sua função cinética e as vibrações visuais que provoca, valorizando os óculos de sol como acessório de luxo.

Nesse mesmo espaço, foi criada a Galeria da Rua, que tinha como objetivo principal vender fotografias de artistas consagrados e também dos adultos em situação de rua que participavam do Projeto Trecho 2.8. A iniciativa oferecia condições para sua subsistência, promovendo dignidade por meio da arte. Não poderia deixar de citar a importância de Isabel Amado e do meu amigo, fotógrafo Iatã Cannabrava, para a realização desse importante projeto. Além, evidentemente, da participação de todo o meio, de fotógrafos contemporâneos que assim apoiaram o projeto.

O projeto foi amplamente elogiado e recebeu críticas internacionais, além de um artigo escrito pelo reconhecido jornalista Gilberto Dimenstein, na Folha de São Paulo. Sua repercussão reforçou a relevância social e artística dessa ideia inovadora.

Como culminação do projeto, organizamos um leilão com o renomado leiloeiro James Lisboa, realizado no antigo espaço Daslu, em São Paulo. Todas as fotografias produzidas pelos participantes — que, a essa altura, podiam ser chamados de artistas — foram vendidas, e a renda foi revertida integralmente para eles e para o projeto.

Essa experiência foi extremamente rica em significado para todos os envolvidos. De certa forma, ela desafiava hierarquias sociais e criava um ambiente de igualdade, onde todos estavam, como dizia o próprio Donizete Soares, “no mesmo balaio”. O projeto gerou grande repercussão na sociedade paulistana e foi amplamente destacado em reportagens da época, sendo uma experiência inesquecível e transformadora para todos nós.

Tudo isso só foi possível porque, na época, decidi vender as Óticas Carol, minha empresa, e dedicar-me inteiramente aos estudos filosóficos, aos projetos sociais e, mais tarde, ao mundo da arte, que acabei abraçando com todo vigor e vitalidade. Foi nesse universo que pude construir uma carreira.

Certamente, se não fosse pelo Donizete e por outros professores e mestres que tive ao longo do caminho — e sobre os quais pretendo escrever em outro momento —, nada disso teria sido possível. Afinal, um jovem só consegue aprender com alguém mais velho que percorreu caminhos diferentes, alguém que, de alguma forma, foi generoso o suficiente para compartilhar suas experiências e oferecer os “equipamentos” necessários para mergulhar e sobreviver em um mundo repleto de dificuldades, que constantemente nos impede de estarmos com nós mesmos.

Por isso, sempre recorro a Nietzsche, que dizia passar pelo menos três quartos do dia consigo mesmo. Ele afirmava: “Não me tire a solidão se não me oferecer verdadeira companhia.”

O que me levou ao Donizete, na verdade, foi um romance do escritor Irvin D. Yalom, intitulado Quando Nietzsche Chorou. Foi por meio desse livro que cheguei a Nietzsche, e, consequentemente, ao Donizete e a tantos outros filósofos que despertaram em mim essa predileção pelo conhecimento. Não apenas no sentido erudito ou de uma certa retidão, mas também no sentido prático: aplicando o conhecimento às práticas humanas. 

Esse livro também me apresentou a Freud e, por conseguinte, ao mundo da psicanálise, que tanto me influenciou. Contudo, essa é uma história para outro capítulo, onde pretendo citar e honrar a memória de Flávio Gikovate, que tanto contribuiu para a minha formação e visão de mundo.

Aproveito para mencionar o Espaço Humus, que foi o embrião do meu ateliê de artes. Foi um lugar onde reuni jovens promissores para produzir conteúdo digital, mapeando a cena artística paulistana. Ao mesmo tempo, o espaço nos servia como uma escola e laboratório de experimentação estética. 

O Espaço Humus foi um lugar onde pude explorar, em meio a mentes criativas, meu próprio potencial artístico na criação de projetos e obras plásticas. Esses trabalhos tiveram grande significado para mim e, mais tarde, culminaram na formação da minha coleção de arte, no surgimento do Museu Fama e da Galeria Kogan Amaro. 

Por fim, este relato descreve como minha relação com o professor Donizete Soares foi frutífera, trazendo-me não apenas inúmeros aprendizados, mas também diferentes visões de mundo. Por isso, dedico este texto à memória do meu eterno professor, Donizete Soares.

2 responses to “Quem foi Donizete Soares e qual é a sua contribuição?”

  1. Querido Marcos

    Obrigado por compartilhar e inspirar com suas obras e projetos. Um forte abraço

    Renato Batista

    Liked by 1 person

    1. Obrigado pelo interesse querido amigo Renato

      Like

Leave a reply to Renato Batista Cancel reply